Introdução: O Omeprazol Virou Rotina — e Isso É Um Problema
Se existe um medicamento que o brasileiro toma com quase a mesma naturalidade que toma vitamina C, este medicamento é o omeprazol. Inibidores da bomba de prótons (IBPs) — como omeprazol, pantoprazol, esomeprazol e lansoprazol — estão entre os medicamentos mais vendidos e mais prescritos do mundo. E em grande parte dos casos, eles funcionam bem: controlam a acidez gástrica, aliviam a azia e protegem a mucosa do esôfago.
Mas o Dr. Rafael Campos, cirurgião do aparelho digestivo com atuação no Hospital São Lucas, Hospital Mãe de Deus e Hospital Moinhos de Vento, tem uma preocupação crescente com o que ele chama de "omeprazolização crônica" — o uso indefinido de IBPs como substituto para uma investigação e tratamento adequados da doença do refluxo gastroesofágico (DRGE). "O remédio controla o ácido. Ele não resolve a causa do refluxo. E há pacientes que ficam anos, décadas tomando IBP, sem nunca saber que poderiam ter sido curados com uma cirurgia minimamente invasiva."
Este artigo trata exatamente desse grupo de pacientes — aqueles cujo refluxo não passa com remédio, que precisam de doses cada vez maiores, que acorda de madrugada com azia e regurgitação, que desenvolveram complicações como esôfago de Barrett — e que podem ser candidatos a uma das cirurgias mais bem estudadas e eficazes da cirurgia do aparelho digestivo: a fundoplicatura.
O Que é a DRGE e Por Que Ela Acontece
A doença do refluxo gastroesofágico ocorre quando o conteúdo do estômago — ácido, bile ou ambos — retorna de forma anormal e persistente para o esôfago, causando sintomas e/ou lesões na mucosa esofágica. O mecanismo central é a disfunção da junção esofagogástrica — especificamente do esfíncter esofágico inferior (EEI) —, que em condições normais funciona como uma válvula unidirecional, permitindo a passagem do alimento para o estômago mas impedindo o refluxo.
A hérnia de hiato — quando parte do estômago sobe para o tórax através do hiato diafragmático — é um fator anatômico importante que predispõe ao refluxo. O Dr. Rafael Campos esclarece que nem toda hérnia de hiato causa refluxo significativo, e nem todo refluxo é causado por hérnia de hiato — mas quando ambas coexistem, o quadro tende a ser mais grave e mais difícil de controlar clinicamente.
Fatores que agravam o refluxo incluem obesidade, gravidez, tabagismo, consumo de álcool, alimentação com excesso de gordura e açúcar, roupas apertadas, deitar-se logo após as refeições e uso de certos medicamentos (nitratos, bloqueadores de canal de cálcio, benzodiazepínicos).
Os Sinais de Que o Refluxo Está Fora de Controle
O Dr. Rafael Campos orienta seus pacientes a reconhecerem os sinais de que o tratamento clínico pode não ser suficiente. Além da azia e regurgitação clássicas, a DRGE pode se manifestar com sintomas atípicos que frequentemente levam a diagnósticos errados ou atrasos no tratamento adequado.
Tosse crônica sem causa respiratória identificada é um dos sintomas extraesofágicos mais comuns de DRGE. Laringite crônica, rouquidão, sensação de globo faríngeo (nó na garganta) e pigarro constante também podem ser manifestações de refluxo laringo-faríngeo. Asma de difícil controle em adultos, especialmente se piorar à noite, deve levantar suspeita de componente de refluxo.
Dor torácica que simula angina — chamada de dor torácica não cardíaca — é responsável por uma parcela significativa das visitas a pronto-socorro e costuma desconcertar tanto os pacientes quanto, às vezes, os médicos que não investigam o refluxo como causa.
O Dr. Rafael Campos alerta: quando esses sintomas persistem apesar do uso correto de IBPs em dose padrão ou dupla, é hora de uma avaliação especializada. "Não dá para ficar ajustando a dose do omeprazol indefinidamente sem entender por que o refluxo não está sendo controlado."
A Investigação Que Precede Qualquer Decisão Cirúrgica
Antes de qualquer discussão sobre cirurgia, o Dr. Rafael Campos conduz uma investigação diagnóstica criteriosa que inclui endoscopia digestiva alta com biópsia — para avaliar a presença de esofagite erosiva, esôfago de Barrett ou outras complicações —, pHmetria esofágica de 24 horas — padrão-ouro para quantificar e correlacionar o refluxo ácido com os sintomas — e manometria esofágica de alta resolução — essencial para avaliar a função motora do esôfago antes de qualquer cirurgia antirrefluxo.
A manometria é particularmente importante porque contraindica a fundoplicatura em pacientes com aperistalse ou hipomotilidade esofágica grave — situações em que a cirurgia poderia dificultar a deglutição de forma significativa. "Operar sem manometria é voar sem instrumentos", afirma o Dr. Rafael Campos.
Fundoplicatura: O Que É e Como Funciona
A fundoplicatura é o procedimento cirúrgico padrão para tratamento da DRGE. Consiste na envoltura do fundo gástrico (parte superior do estômago) ao redor da porção inferior do esôfago, reforçando mecanicamente o esfíncter esofágico inferior e reconstituindo a barreira antirrefluxo. Quando há hérnia de hiato associada, ela é corrigida simultaneamente.
A técnica mais utilizada é a fundoplicatura de Nissen (360 graus), mas o Dr. Rafael Campos também realiza variantes parciais como a fundoplicatura de Toupet (270 graus posterior) e de Dor (180 graus anterior), que podem ser preferíveis em pacientes com motilidade esofágica reduzida. A escolha da técnica é individualizada e fundamentada nos achados da manometria.
Atualmente, a fundoplicatura é realizada por via laparoscópica — com pequenas incisões, câmera e instrumentos, sem necessidade de abertura do abdome. O Dr. Rafael Campos tem experiência com as abordagens laparoscópica e robótica, sendo esta última cada vez mais utilizada para maior precisão nos tempos mais delicados do procedimento. O tempo cirúrgico gira em torno de 1 a 2 horas, a internação é de 1 a 2 dias e a recuperação é consideravelmente mais rápida do que na cirurgia aberta.
Resultados: O Que as Evidências Dizem
A fundoplicatura laparoscópica é uma das cirurgias com os melhores resultados documentados na literatura médica. Estudos de acompanhamento de longo prazo — alguns com mais de 10 anos — mostram que entre 85% e 92% dos pacientes bem selecionados ficam livres de IBPs após a cirurgia, com satisfação elevada e qualidade de vida significativamente melhor. A taxa de reoperação gira em torno de 5% a 10% em longo prazo.
O Dr. Rafael Campos enfatiza que o resultado depende fundamentalmente da seleção correta dos pacientes. Pacientes com refluxo confirmado por pHmetria, boa motilidade esofágica, hérnia de hiato associada e sintomas relacionados ao refluxo têm os melhores resultados. Pacientes com sintomas predominantemente de globo faríngeo, tosse crônica isolada ou dor torácica sem correlação com refluxo confirmado têm resultados mais incertos — e devem ser avaliados com ainda mais cuidado antes de qualquer indicação cirúrgica.
Esôfago de Barrett: Quando a Urgência da Cirurgia Aumenta
O esôfago de Barrett é uma complicação grave da DRGE crônica. Ocorre quando o epitélio normal do esôfago é substituído por um epitélio colunar metaplásico, em resposta à exposição crônica ao ácido. O Barrett per se não causa sintomas adicionais, mas é considerado uma lesão pré-maligna — com risco aumentado de progressão para adenocarcinoma de esôfago.
O Dr. Rafael Campos alerta que pacientes com Barrett têm indicação de vigilância endoscópica regular e que, em casos selecionados, a cirurgia antirrefluxo pode ser parte do manejo — especialmente quando o refluxo não está adequadamente controlado com medicamentos, pois a exposição ácida continuada favorece a progressão da displasia.
Perguntas Frequentes Sobre Refluxo e Cirurgia
1. Posso ficar no omeprazol para sempre sem riscos?
O uso prolongado de IBPs está associado a alguns efeitos adversos, como maior risco de deficiência de vitamina B12, magnésio e cálcio, alterações na microbiota intestinal e — em estudos observacionais — associação com maior risco de infecções gastrointestinais e doença renal crônica. No entanto, esses riscos devem ser ponderados com os benefícios. O Dr. Rafael Campos não defende interromper abruptamente um IBP necessário, mas sim investigar se a cirurgia poderia ser uma alternativa mais definitiva.
2. A cirurgia de refluxo é definitiva?
Na maioria dos pacientes bem selecionados, sim. A taxa de sucesso em longo prazo é alta. Há, no entanto, casos de recidiva — especialmente em pacientes com obesidade que não modificam seu estilo de vida, ou naqueles com hérnia de hiato muito grande e fraqueza diafragmática.
3. Qual é a diferença entre fundoplicatura laparoscópica e robótica?
Ambas utilizam a mesma abordagem minimamente invasiva, com pequenas incisões. A cirurgia robótica oferece ao Dr. Rafael Campos maior precisão de movimentos, melhor visualização em 3D e mais conforto ergonômico em cirurgias complexas. Para muitos casos, o resultado final é comparável, mas a robótica tende a ser preferida em casos com hérnias grandes ou reoperações.
4. Tenho refluxo há 20 anos e nunca fiz endoscopia. Devo fazer?
Com certeza. O Dr. Rafael Campos recomenda enfaticamente que qualquer paciente com sintomas de refluxo por mais de 5 anos realize endoscopia para rastreamento de esôfago de Barrett, especialmente se for homem, acima de 50 anos, com obesidade ou tabagismo. Barrett é silencioso e o diagnóstico precoce pode ser determinante no prognóstico.
5. Após a cirurgia, poderei comer normalmente?
A maioria dos pacientes retorna a uma alimentação normal em poucas semanas. Nos primeiros 30 dias, há restrições graduais na consistência dos alimentos. Alguns pacientes experimentam dificuldade transitória para engolir no pós-operatório (disfagia transitória), que costuma resolver espontaneamente. O Dr. Rafael Campos acompanha todos os seus pacientes de perto no período pós-operatório para garantir a recuperação adequada.